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Tempestade no deserto

mirenereis @ 21:30

Há dias que nós , os Kushi , tribo nómada , estamos hospedados neste hotel cheio de vida , de verdura, e de …água -o oásis.

Mas a água vai-se tornado uma espécie em extinção , é preciso economizar.

Os meus pensamentos são chamados de volta á Terra . Tudo começa quando um sentimento de tranquilidade se insinua na minha consciência . De repente fica tudo calmo. As folhas não restolham. Os insectos não cantam . Não se vêm as lagartixas.

O ar , que todo o dia esteve quente , fica pesado. Paira sobre as palmeiras , empurra as corolas das flores para o solo , instala-se nos meus ombros . Com uma vaga sensação de desconforto , dirijo-me para a tenda. Lá ao fundo , a oeste , encontra-se a resposta : nuvens que formam um gigantesco cume de torres brancas , erguidas contra o céu azul.

A sua penetrante brancura é de curta duração . As nuvens revelam a sua natureza mais escura. Impõem-se ao sol do fim da tarde e o dia escurece mais cedo. Depois , uma rajada de vento chicoteia a poeira ao longo da paisagem arenosa , num aviso inamistoso daquilo que se vai seguir.

Na negra tenda , algo cai com estrondo , os oleados esvoaçam. Corro a guardar as cabras e os camelos na tenda-grande. Trovões começaram ribombar ao longe. Ouve-se um murmurinho por entre as outras mulheres do grupo , todas vestidas em combinações extravagantes de vermelho e azul , com lenços brilhantes cobrindo os cabelos.

As primeiras gotas de chuva são enormes. Salpicam a poeira e as folhas estremecem sob o seu peso ; depois voltam a endireitar-se.

O ritmo acelera-se ; as grossas bagas de chuva vão-se transformando numa cortina espessa. O som é o de um rufar de tambores e as bátegas são um exercito em marcha pelas areias. É então que o primeiro relâmpago trespassa a terra. É o ponto de exclamação do céu. A tempestade está aí !

Contra a vontade , assusto-me com o ribombar do trovão que se segue . Sacode a folhagem e faz com que um dos cães vá a correr esconder-se . O ribombar do trovão seguinte é ainda mais próximo .Faz-me eriçar os longos e negros cabelos na nuca e involuntariamente afasto-me da abertura que fazia de porta.

A chuva transforma-se então em torrente , caprichosamente arremessada pelo vento que se levantou. Em conjunto , golpeiam as enormes folhas das palmeiras e arrasam as ervas . Só se vê água . Como é que uma carga tão forte cai tão depressa ? Como é que a terra pode suportá-la ?

Agora são as pedras de granizo que martelam no oleado da tenda. Salpicam tudo ao cair nos charcos.

Porque esta tempestade está a passar , a tensão libertou-se da atmosfera ,as cortinas de chuva deixam entrar mais luz . A tempestade despendeu a maior parte da sua energia e a que sobrou será gasta mais no interior , para leste.

Somos arrastados para fora , enquanto a chuva continua a cair . Ao meu redor paira uma sensação de frescura que me dá as boas-vindas. Uma das mulheres saúda a água:

-SALAM ALEIKAM.

Respiro fundo e observo os raios de sol rompendo por entre as nuvens. Um raio de sol bate nas gotas que se formam nas pontas das grandes folhas e sou obsequiada com uma série de cores minúsculas e trémulas - o meu arco íris.

Escolho o caminho através da erva molhada, afundando os pés no solo saturado. O riacho que corre pela ravina transporta água castanha , mas os pequenos lagos e charcos estão já a desaparecer na areia sequiosa.

Tudo está lavado de fresco e brilhante.

Tal como a areia , sinto-me renascida , com o espírito purificado. Invade-me uma paz infinita . Esqueci por algum tempo as preocupações e irritações que me apoquentavam antes. Foram levadas para longe pelo esplendor da tempestade do deserto.

MireneReis - 1991

P.S.

Este texto foi 1º prémio do concurso de literatura " Jogos florais" do Colégio Internato dos Carvalhos,no ano lectivo 1990/1991 , com o tema "Tempestade no deserto". O pseudónimo literário utilizado foi MIMIREIS.

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